O Magic: the Gathering é um jogo grande com mais de 20 anos de idade. A medida que o tempo foi passando e coleções foram lançadas o acervo de cartas de Magic só foi aumentando, assim como a quantidade de jogadores e, como não poderia ser diferente, diferentes jogadores têm diferentes necessidades. Alguns jogadores preferem interações mais casuais, enquanto outros buscam a satisfação de vencer campeonatos. Alguns preferem mecânicas e planos de jogo complexos e intrincados, outros são adeptos de encontrar a maneira mais simples para o fim do jogo. Enquanto o Magic crescia passou a ser imperativo entender o que esses diferentes jogadores queriam para que o Magic fosse uma boa experiência para todos, e hoje sabemos que essa é uma preocupação das Equipes de Desenvolvimento da Wizards na criação de novas coleções.
Outro reflexo do crescimento do Magic veio na forma em que se joga o jogo e esse era um objetivo do jogo desde o início. Como Mark Rosewater já nos disse, o Magic foi criado por Richard Garfield para ser um jogo modular e adaptável e os jogadores deveriam se aproveitar disso da maneira que preferissem. A partir dessas várias formas de se jogar o mesmo jogo, com diferentes cartas e diferentes regras, foram criados os Formatos de Magic.
Os jogadores, que já traziam consigo suas divergências, foram se aproximando do formato que mais lhes agradava. Há jogadores que preferem os formatos limitados, como o Draft e o Selado, e os jogadores que se dedicam com mais afinco ao construído, jogando Standard, Modern, Pauper, Commander e outros. Há ainda aqueles que preferem sair dos formatos sancionados, criando os seus próprios formatos, casuais ou não, como o popular Mesão. E da mesma forma o Magic, através de seus lançamentos, têm que atender a todos eles da melhor forma possível.
A Wizards já criou mecanismos para que isso seja possível, que incluem o lançamento de coleções e produtos suplementares, que, na maioria das vezes, têm um alvo em um tipo de jogador e formato muito específico. É o caso das coleções da série Master, os sets de Conspiracy e Battlebond e também os decks pré-construídos para Commander. Cada vez mais, no entanto, a Wizards têm se especializado em atingir outros formatos através das coleções destinadas para o Standard.
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Embarcar no Bons Ventos, arte de Tyler Jacobson. © Wizards of the Coast |
As Lendas de Dominária
Um recente exemplo disso é a coleção de Dominária. A coleção foi explorada de maneira excelente de forma a nos dar uma experiência completa. A emoção e a nostalgia de trazer este icônico plano de volta ao Standard do Magic, puxado por um dos ambientes de Limitado mais interessantes entre as últimas coleções, foi um componente determinante para o sucesso que sabemos que o set foi, mas há outros fatores. A História foi um dos temas principais da coleção o que facilitou para que Dominária também se tornasse um incrível lançamento para os formatos Commander e o recém lançado Brawl.
A coleção contou com 44 criaturas lendárias inéditas que incluíram lendas de mono-coloridas a de todas as cores, passando por pelo menos uma em cada combinação de duas cores. Pela primeira vez em muito tempo vimos criaturas lendárias ocupando a raridade incomum e a coleção até mesmo garantiu que você sempre abriria uma carta lendária ao abrir um booster.
Talvez mais importante que a quantidade tenha sido a qualidade já que as lendas, em geral, tinham um bom nível de poder, mesmo as incomuns. Muitas delas têm o potencial para comandarem um deck, como Muldrotha, a Maré Tumular e Radha, Grã-senhora da Guerra e alguns foram desenvolvidos especificamente para este fim, como Jhoira, Capitã do Bons Ventos, a tão pedida comandante de artefatos na identidade Izzet. Além das próprias criaturas, a coleção estava repleta de sinergias lendárias, como a mecânica Histórica e o ciclo de Feitiços Lendários.
Esse apelo a outros formatos ajudou Dominária a ser também um sucesso comercial, já que, não só os jogadores de Standard e Limitado estavam interessados nas cartas da coleção.
As Anti-cartas de M19
A Coleção Básica 2019 está seguindo esse mesmo modelo de sucesso, mas desta vez com outro formato em vista: o Modern. O primeiro passo para atingir este público foi incluir alguns desejosos reprints na coleção, como Crisol dos Mundos, Metapaisagem e Torre do Relicário.
É claro que isso não basta, os jogadores também estão atrás de cartas inéditas e novos ângulos para explorar o formato. Dessa forma, aproveitando a flexibilidade de uma coleção básica, algumas cartas "estilizadas e de nicho" foram desenvolvidas para impactar diretamente o Modern sem que impactem negativamente o Standard e também sem ferir o objetivo de ter M19 como uma ótima coleção introdutória.
Tendo acesso à coleção completa podemos perceber que as mais notáveis destas cartas são cartas focadas em impedir que seu oponente realize seu plano de jogo, por isso podem ser chamadas de anti-cartas. Este é um espaço de design muito interessante para se criar cartas voltadas para outros formatos, já que as estratégias alvo podem não estar tão bem representadas no Standard.
Podemos tomar como exemplo a primeira habilidade de Amuleto da Segurança. Há poucos cenários no Standard que essa habilidade é relevante, talvez ao enfrentar uma Balista Ambulante com muita munição ou uma Mestra das Marionetes especialmente talentosa. No Modern, no entanto, ela já passa a ser uma carta de sideboard a considerar contra decks do topo do formato. Contra o Burn ela pode atrasar o oponente fazendo com que ele conjure menos mágicas por turno, o que pode ser suficente para te comprar o tempo necessário. Enquanto está em campo ela também impede que decks combos que tentam acabar o jogo com uma enxurrada de habilidades de uma vez, como os decks de Valakut e Storm, possam vencer aumentando imensamente a quantidade de mana necessária para que o combo seja letal.
Como outro bom exemplo temos Clérigo Arrependido, que é um afeito anti-cemitério num corpo. Ao contrário do Amuleto esta é uma carta que pode ser muito bem usada no Standard com considerável sucesso. Ele pode aparecer do sideboard de alguns decks para alguns confrontos específicos, em especial contra os decks de Dádiva do Faraó-Deus, mas também contra algumas outras criaturas que abusam do cemitério, enquanto ele mesmo é uma criatura decente. Já no Modern seu poder é amplamente amplificado. Não somente há uma infinidade de decks contra os quais o Clérigo é relevante, mas ele também se aproveita de cartas que já aprimoram decks de criatura, como Companhia Agrupada, de um arquétipo pronto, o Hate-Bears, e uma tribo consideravelmente poderosa, os espíritos.
Esses são apenas dois exemplos, mas M19 tem algumas outras anti-cartas que são ainda mais interessantes. Esse pode ser um impulso para que um set que talvez fosse menos aberto, por se propor a ser um set introdutório, bata suas marcas de venda. Também é um bom sinal que a Wizards está explorando possibilidades para fazer de seus produtos uma experiência melhor para diferentes tipos de jogadores.
Ao que tudo indica a Wizards deve manter essa tendência de mirar em formatos diferentes do Standard em suas expansões e coleções básicas. Alguns formatos são mais difíceis de impactar, como Vintage e Legacy, e devem ser deixados mesmo para produtos suplementares, mas outros, como o Pauper ainda estão na linha e podem receber seu momento em uma coleção vindoura. O mais importante é que os jogadores continuem aproveitando o jogo qualquer que seja o formato de sua escolha.
E você, gosta dessa tentativa de atingir mais formatos em coleções para o Standard? Qual formato você gostaria de ver na próxima? E qual sua forma de jogar favorita? Sinta-se livre para usar nossa seção de comentários. Você também pode nos alcançar na página, email (artesaosdomagic@gmail.com) ou twitter (@artesaosdomagic). Obrigado pela leitura.
Thiago Santos